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outubro 31, 2005
Causas 2
Que fique bem claro: continuo a defender fervorosamente a despenalização do aborto. O simples facto de se sujeitar a um aborto já é uma penalização suficientemente forte para a mulher que o pratica, não considero que a sociedade tenha o direito de a penalizar ainda mais.
Portanto, qualquer que seja o momento e a forma como a consulta seja efectuada, votarei sempre pela despenalização do aborto em referendo popular (como já o fiz, na única vez em que fui chamado a tal).
Posto isto, há para mim um princípio ainda mais importante, cujo incumprimento parece ter virado moda entre a nossa classe governante, que é o do cumprimento das promessas eleitorais (pelo menos daquelas que passam da promessa de campanha para o programa de governo!).
Infelizmente, os últimos 10 anos de governação em Portugal têm demonstrado que os políticos prometem uma coisa para ganhar eleições e, chegados ao poder, fazem muitas vezes exactamente o oposto. Para isto muito contribuiu uma atitude demasiado passiva/permissiva de quem podia vetar muitos desses incumprimentos, o Presidente da República.
No entanto, o facto é que não foi essa a atitude normal de Sampaio e, com isso, habituámo-nos a ver descidas de impostos transformadas em aumentos e o controlo da despesa transformado em mais despesa, sempre justificado com as circunstâncias particulares do momento, que não permitia a implementação das medidas inicialmente prometidas.
É por isso que vejo com algum prazer um governo querer manter-se fiél a uma promessa eleitoral, apesar das circunstâncias anormais que a rodeiam.
No entanto, também não posso deixar de concordar com as vozes que se levantam contra um Governo que já faltou tantas vezes com a palavra dada em campanha e que apenas agora se lembra que, neste caso específico, defendeu nessa campanha uma posição concreta.
Muito sinceramente, dada a gravidade da situação (penalização do aborto), esta seria daquelas situações em que eu até estaria receptivo a aceitar a mudança de posição do Governo, até porque não foi apenas por culpa própria que a sua promessa eleitoral não foi cumprida...
Publicado às 19:13:09