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fevereiro 17, 2005

Declaração de voto

Ao contrário daquela que tem sido a ideia por mim perfilhada ao longo dos últimos meses, decidi que não vou votar em branco nestas eleições e muito menos abster-me.

Sobre a abstenção já aqui falei antes. É um acto de cobardia e/ou irresponsabilidade, de quem não é capaz de assumir as suas responsabilidades, deixando sobre os ombros dos seus compatriotas a decisão do futuro do país. Para mim, não é sequer uma opção válida a considerar. Aliás, já aqui o defendi e volto a defender que a abstenção devia mesmo ser punida. É tempo de se perceber que o voto é tanto um direito como uma obrigação.
De qualquer forma, uma coisa é certa: quem se abstiver escusa depois de vir criticar as opções que quem for eleito tomar...

Um longo processo mental e de debate nos últimos dias com amigos e colegas de trabalho levou-me a concluir que a minha opção pelo voto em branco/nulo acaba por ser muito semelhante à abstenção, apenas diferenciado pela participação activa na votação.
O voto em branco seria um voto a considerar caso a proporção de votos em branco tivesse correspondência a cadeiras vazias no Parlamento. A partir do momento em que é estatisticamente irrelevante para o apuramento de deputados à Assembleia da República, votar em branco é, na prática, o mesmo que a abstenção, um voto de irresponsabilidade e/ou resignação, pois é deixar na mesma nas mãos de quem vota útil a decisão sobre o futuro do País.

Estas eleições são cruciais demais para este nosso amado Portugal para nos podermos dar ao luxo de não expressar uma posição.

Ainda assim, não consigo votar no partido que tem a minha simpatia histórica, porque o seu líder não me inspira a mínima confiança e porque, juntamente com Jorge Sampaio, é o principal responsável por esta crise política. Tem que ser de alguma forma punido um partido que tem um líder que se preocupa mais com a sua carreira que com os destinos do País, que deixou entregues a um louco bem-falante, mas incapaz de levar a cabo qualquer projecto que implique coerência de ideias por mais de uma semana. Por muito que me custe, o voto no PSD está excluído.

E ao excluir das opções de voto o PSD, dei por mim nestas últimas horas a recordar o apelo de Cunhal na 2ª volta das Presidenciais de 1986, em que o PCP, perante um cenário de “combate” entre Mário Soares e Freitas do Amaral, apesar de todas as divergências que mantinha com Soares, não se coibiu de apelar ao voto no candidato que, numa análise fria e desapaixonada, menos mal representava os interesses da esquerda (sim, longe vão os tempos em que Freitas do Amaral era um homem de direita...). Foi provavelmente o maior “sapo” que Cunhal teve que engolir ao longo da sua longa carreira política.
Pois é numa situação semelhante que me encontro, prestes a engolir um enorme “sapo” no próximo Domingo.

É também óbvio para quem me conhece o suficiente que o voto no PCP nem sequer pode ser considerado. Se já com Carvalhas era difícil imaginar tal voto, com a nova liderança, ainda mais ortodoxa, muito menos se coloca esse cenário. A prática já tratou de demonstrar que o comunismo não é a solução.

O efeito novidade e de benefício da dúvida sobre o Bloco de Esquerda também já lá vai. Já demonstrou que é uma presença importante na Assembleia da República, para que certas questões sejam debatidas, mas não creio que o seu crescimento seja benéfico para Portugal. É um partido de opostos, que defende inúmeros princípios de liberdade individual em questões éticas, mas que quando chega ao terreno da Economia é extremamente estatizante, ou seja, anti-liberal. E, por muito que me reveja em muitas das ideias do BE sobre aborto, despenalização do consumo de drogas e combate ao sigilo bancário, o que Portugal menos precisa é de mais Estado.

Quanto a outros partidos candidatos fora deste espectro de partidos, considero que é um voto desperdiçado. Com a eventual excepção da Nova Democracia, não vejo que seja possível a nenhum outro eleger deputados. E se não elegem deputados, é um voto praticamente tão válido como votar em branco.

Debato-me assim com um combate ideológico interno. Entre o PS e o PP. Entre um partido de centro-esquerda que representa a rotatividade ao centro e que é o único partido eventualmente em condições de dar ao País uma solução governativa estável, sem depender de terceiros e um partido cada vez mais de direita, que fez parte da maioria que governou o País nos últimos dois anos e meio, que apresenta com uma ideia económico-social para Portugal, mas com posições demasiado conservadoras em termos de questões da consciência de cada um.
Parece-me óbvio que o meu voto não pode ir para um partido que apresenta a estas eleições praticamente os mesmo rostos e ideias que praticamente deixaram Portugal em colapso em 2001.
O meu voto não pode ir para um conjunto de pessoas que, nesse cenário de crise, fugiu às suas responsabilidades.
O meu voto não pode ir para um partido que já deu demasiados sinais de que virou à esquerda e de que iremos ter mais Estado.
O meu voto vai para o partido que pode efectivamente evitar a maioria absoluta do partido atrás referido. A estabilidade não é tudo. E eu prefiro a instabilidade dos acordos pontuais do que 4 anos de estabilidade de políticas antagónicas aos meus ideais.
O meu voto vai para um partido que, contra todas as expectativas, soube ter postura de Estado quando foi chamado a governar e que consegue mostrar alguma Obra feita e ideias de como continuar a fazer Obra. Se estamos neste momento em eleições antecipadas, a culpa não é claramente do PP.

É por tudo isto que vou optar pelo voto válido e útil no partido que neste momento menos me desilude. O partido que, de entre o leque de (más) opções disponíveis, mais pode ajudar Portugal a ter futuro.
É por isso que, como Cunhal em 1986, vou desviar o olhar e engolir em seco no momento de expressar o meu voto. Voto esse que, como já devem ter compreendido, será dado ao PP, com a esperança de assim evitar a maioria absoluta do PS.
Não tenho dúvidas que, nesse cenário o PS será obrigado muito mais vezes a procurar entendimentos à direita para governar o País. E o PP demonstrou nestes 2 anos e meio que saberá ter o necessário sentido de Estado para permitir a governação de Portugal..

Publicado às 17:45:38

Comentários

Excelente post, Nuno. Concordo com 97% do que disseste e admiro a tua opção. Espero que o objectivo seja conseguido.
Anita, o Portas tem muitos defeitos, mas no essencial da ideologia política não é retrógrado. Além do mais o partido não é ele, mas sim um conjunto de pessoas de onde sobressaiem nomes bastante competentes e admiráveis. Não tenho qualquer ligação ao PP para estar aqui em sua defesa, mas reconheço algum valor.

Publicado por: MB às fevereiro 18, 2005 02:08 PM

Nuno, concordo com quase tudo o que escreveste e garanto-te que não estás nem perto de estar sozinho na tua decisão (ainda ontem um colega meu, habitual eleitor laranja, me disse o mesmo. Penso que a % do PP nestas eleições, entre desiludidos com PS e PSL vai surpreender muito bom analista. Eu aponto para os 13-15%. Domingo logo veremos

Publicado por: Nelson Santos às fevereiro 18, 2005 01:38 PM

Jamais (entendo eu neste momento...) conseguiria votar num PP, com tal líder que não consigo ver senão cinismo (o que não falta por aí também, em outras paragens partidárias..) e ideais tão retrógrados, mas é de enaltecer a preocupação em assumirmos uma posição de responsabilidade e de não continuarmos a fugir ao que nos diz respeito.

Publicado por: Anita às fevereiro 18, 2005 12:14 AM

Muito embora não concorde com algumas ideias aqui expostas - nomeadamente no que diz respeito às responsabilidades do PP - escreveste um raciocínio interessante, fruto, ao que parece, de bastante ponderação (e ainda nem chegou o dia de reflexão).
E o facto de não te absteres e de não votares em branco é igualmente de louvar.

Publicado por: João Pedro às fevereiro 17, 2005 08:25 PM