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agosto 21, 2004
[1227/2004] Mais um...
Para que se perceba bem a paz podre que existe no balneário do Benfica, é imprescindível a leitura da entrevista de Hélder a Alexandra Tavares-Teles, publicada no Correio da Manhã de hoje. Pode-se questionar o porquê da entrevista só agora depois de sair do clube e até parecer alguma "dor de cotovelo", mas estas palavras são graves demais para serem ignoradas, especialmente se tivermos em conta o que Tiago (que também saiu...) disse em Junho...
"Há dois anos, Luís Filipe Vieira reuniu-se comigo e com outros jogadores e fiquei completamente surpreendido quando ele nos pediu para deixarmos de falar a três colegas do plantel, de forma a isolar esses jogadores. Tratava-se de Drulovic, Zahovic e Argel. Recusei seguir tal conselho. Organizei, então, uma reunião com o grupo onde foi tudo dito, cara na cara, jogador a jogador. Com esta atitude, penso que devolvi ao clube dois jogadores que hoje são importantes para os objectivos da equipa. Recuperei-os, quando os dirigentes queriam metê-los numa caixa. Queriam que tramasse três colegas. Senti que a partir daquele momento o meu destino no Benfica estava traçado."
"Devo tudo ao Benfica, tudo começou no Benfica mas não me obriguem a confundir o grande clube com os dirigentes que lá estão. Sei muito bem distinguir as coisas e faço questão de o fazer."
"durante onze anos (José Veiga) foi meu empresário, atribuindo-me todas as qualidades, e depois dispensa-me."
O central causou sensação ao assinar esta época pelo Paris Saint-Germain, após ter sido dispensado do Benfica. Hélder sai magoado da Luz, mas garante estar de consciência tranquila. De resto, a permanência estava ameaçada por não querer compactuar com certas situações
Correio da Manhã – Esperava renovar pelo Benfica?
Hélder – A partir de certa altura percebi perfeitamente que não ia ficar no clube. Mas, apesar disso, sempre pensei que sairia de uma forma mais digna. Por aquilo que dei ao Benfica julgo que merecia o reconhecimento público da minha dedicação ao clube e um pouco mais de respeito.
– Que altura foi essa em que percebeu que não ficaria?
– A partir do momento em que perdemos com o Sporting, em casa, começaram imediatamente as notícias sobre a falta de interesse do Benfica em mim e no Argel. E as notícias não aparecem do nada.
– Nesse momento procurou saber junto dos dirigentes o que se passava?
– Tentei, até porque nessa altura ainda tínhamos muitos jogos pela frente e notícias dessas não eram benéficas para o grupo. Fi-lo pelos meus deveres de capitão, em defesa do grupo, e não por estar preocupado comigo.
– A disputa da braçadeira de capitão com Simão Sabrosa ajudou ao seu afastamento?
– Penso que sim. Pelo que me disseram pretende-se, hoje, uma nova imagem. Eu sempre fui um capitão incómodo porque defendi, exclusivamente, os jogadores. Hoje, Simão é o capitão e espero que o seja por muitos anos.
– Simão não é assim?
– Somos diferentes.
– Como é a vossa relação?
– Apesar do que se passou e de algumas mentiras que foram ditas – como a de eu ter feito ‘lobbing’ – consegui ter sempre uma relação normal com Simão.
– Diz que foi um capitão incómodo para a SAD. Pode dar alguns exemplos?
– Entendi claramente que era um empecilho. Continuando no Benfica teria que manter-me como capitão do grupo e isso podia incomodar algumas pessoas. Estive sempre do lado dos jogadores. Há outros que serão mais convenientes para a administração. Eu tenho a consciência tranquila. Sei que fui um grande capitão.
– Dê exemplos...
– Vou dar-lhe aquele que ditou o meu futuro no Benfica. Há dois anos, Luís Filipe Vieira reuniu-se comigo e com outros jogadores e fiquei completamente surpreendido quando ele nos pediu para deixarmos de falar a três colegas do plantel, de forma a isolar esses jogadores. Tratava-se de Drulovic, Zahovic e Argel. Recusei seguir tal conselho. Organizei, então, uma reunião com o grupo onde foi tudo dito, cara na cara, jogador a jogador. Com esta atitude, penso que devolvi ao clube dois jogadores que hoje são importantes para os objectivos da equipa. Recuperei-os, quando os dirigentes queriam metê-los numa caixa. Queriam que tramasse três colegas. Senti que a partir daquele momento o meu destino no Benfica estava traçado. Não é por estar em França que estou a contar isto. Faria o mesmo se estivesse a jogar em Portugal.
– Mais situações em que afrontou a SAD...
– Cheguei a ser acusado de só pensar em prémios e quando referia que estava ali a representar o grupo e os seus interesses legítimos era incompreendido.
– Existiam muitos prémios em atraso?
– Não.
– Disse que o Paris Saint-Germain é melhor do que o Benfica. Mantém?
– Neste momento é. Pelo menos teve acesso directo à Liga dos Campeões.
– Não estará a ser ingrato?
– Mas eu nunca serei ingrato com o Benfica – instituição. Devo tudo ao Benfica, tudo começou no Benfica mas não me obriguem a confundir o grande clube com os dirigentes que lá estão. Sei muito bem distinguir as coisas e faço questão de o fazer.
– Que pensa da contratação de Trapattoni?
– É um grande treinador que encaixa bem no clube. Tem bastante classe e empresta credibilidade a este Benfica.
– Quem é o grande candidato ao título?
– O Benfica é o grande candidato porque tem uma estrutura que transita do ano passado e um bom treinador.
– Defendeu ao longo do Euro a utilização de Simão em detrimento de Cristiano Ronaldo. Ainda mantém a mesma opinião?
– Cristiano Ronaldo fez um grande europeu, provou que podia jogar a titular e, nesse sentido, dou a mão à palmatória. Mas continuo a dizer que Simão tem mais consistência para jogar de início.
– O que diz da eliminação da selecção olímpica...
– Um grande ponto de exclamação. Fiquei absolutamente surpreendido.
– Confirma que lhe foi dito, pelos dirigentes, que Tiago apenas pensava em dinheiro e que era por isso que ele queria sair?
– Disseram-me a mim e a mais pessoas. De resto, sempre tive o cuidado de nunca reunir sozinho com os dirigentes. Sempre levei comigo os outros capitães. E a todos nos foi dito isso mesmo. A saída do Tiago já era esperada porque a relação dele com José Veiga estava muito deteriorada.
– José Veiga foi seu empresário durante onze anos. De que forma é que ele lhe comunicou o desinteresse do Benfica?
– Numa reunião ele disse-me que o futebol está diferente, sem nunca concretizar essa ideia. Lembrei-lhe que tinha sido um dos dez mais utilizados, mas ele só me dizia que o futebol tinha mudado. No final, perguntou-me o que pensava fazer e respondi: ‘diz-me tu, que és o meu empresário’. Porque é curioso: durante onze anos foi meu empresário, atribuindo-me todas as qualidades, e depois dispensa-me.
– Como viu a passagem de Veiga-empresário para Veiga-dirigente?
– Não escondo que muitos jogadores estão desiludidos. Há já bastante tempo que ele vinha preparando a entrada no Benfica mas foi incapaz de dar andamento aos processos dos seus jogadores. E alguns deles estão agora desempregados porque ficaram sem empresário. Veiga abandonou os jogadores à sua sorte.
– Quem o ajudou a chegar ao Paris Saint-Germain?
– Neste momento não tenho empresário, que é o melhor que pode acontecer a qualquer jogador. Diz-me a experiência que é assim. Fui claro: disse que ainda tencionava jogar mais dois anos e que a não ser no Benfica só no estrangeiro. E assim foi, sem a ajuda de ninguém.
– Vai jogar com o avançado português Pedro Pauleta na capital francesa. Como está a ser a adaptação ao novo clube?
– Muito boa. O clube tem a preocupação de me dar todas as condições necessárias para desenvolver da melhor forma o meu trabalho. O treinador considera que sou um jogador importante no seio do grupo, até pela minha experiência, e já percebi que existe uma massa associativa muito ambiciosa no Paris Saint-Germain.
– Quais são os objectivos traçados para esta nova temporada?
– O treinador [o bósnio Vahid Halilhodzic] ainda não assumiu a vitória na Liga francesa como um objectivo. Há um discurso de contenção, mas penso que os objectivos passam por levar a equipa o mais longe possível em todas as competições em que se encontra em prova.
– O abandono do futebol está então marcado para daqui a dois anos?
– No futebol nada pode ser dado como adquirido. Logo se vê. Mas confesso que não tenciono arrastar-me pelos relvados. Espero abandonar, um dia, a minha carreira de futebolista com toda a naturalidade e sem sobressaltos.
PERFIL
Nome: Hélder Marino Rodrigues Cristóvão
Data de Nascimento: 21/03/71 (33 anos)
Naturalidade: Angola
Posição: Defesa central
Clubes representados: Estoril, Benfica, Corunha e Newcastle
Clube actual: PSG
Títulos: Taça de Portugal (1993, 1996 e 2004), Campeão de Portugal (1994), Supertaça de Espanha (2000) e Taça do rei de Espanha (2002)
Internacionalizações: 35 (3 golos)
Publicado às 22:40:49
Comentários
Quando é que vai começar uma época se haver um qualquer escândalo a envolver o Benfica?
Essa é a táctica usada há vários para fragilizar a equipa logo de raíz...
E porque é que ninguém fala do Mourinho e do Sr Pinto da Costa que tão amigos eram e que já nem se podem ver? E das obrigações do Mourinho em pôr certos jogadores a jogar, contra a sua vontade, para os valorizar e o clube poder vendê-los a preços bastante inflacionados... E a bronca do Del Neri? O que passou foi que o FCP foi o maior por perceber que tinha um treinador incompetente antes de começar a época... Queria ver se tivesse sido no Benfica. Era a desgraça de certas pessoas que não tinham visto à priori que o treinador era mau e que tinham gasto rios de dinheiro com uma contratação inútil.
A culpa tb é do Benfica que se deixa ir neste tipo de situações...
Publicado por: MB às agosto 23, 2004 11:08 AM
O que se passa no Benfica é uma acumular de muitas coisas que se passaram. Enquanto estiver um estrutura assim ou semelhante na direcção do Benfica nunca ha-de andar para a frente.
Publicado por: kamarrad às agosto 22, 2004 01:39 PM
Parece-me que o fanatismo clubista leva as pessoas a não constatarem as evidências. Quando um clube desta envergadura tem como Presidente uma pessoas que até há poucos anos era, também, sócio do FC Porto e do Sporting (dizia que deste ultimo para poder praticar natação mas do 1.º não conheço explicação) e como responsável máximo pelo Dep. futebol um ex-presidente de uma casa do FC Porto no Luxamburgo e que abandonou uma profissão próspera de agente FIFA para se dedicar a um clube que, é publico, não é aquele do seu coração, alguma coisa está errada. E só não vê quem não quiser.
Publicado por: Diesel às agosto 22, 2004 02:55 AM
Nos interesses do Benfica o Hélder nunca devia ter aceitado ser candidato a capitão do benfica e começou aí o descalabro da época passada ...
Aliás, o próprio camacho o admitiu a meio da época ...
Quanto às situações referidas cada um diz o que quer ... Estando as pessoas em causa ainda em actividade ao serviço do benfica, esta entrevista à semelhança da sua passagem pelo benfica e o episódio do capitão mostram claramente à saciedade, que o hélder está mais preocupado com os seus interesses pessoais do que com os do benfica, e é natural que assim seja ...
Não venha é atirar poeira para os olhos dos outros ... A dor de cotovelo é f.dida ...
Publicado por: bcool às agosto 22, 2004 12:15 AM
Pois, acho que tens razão. Por um lado faz afirmações gravíssimas contra o L.F.Vieira e que este terá(?) mais tarde ou mais cedo que rebater. Por outro, também penso que há alguma dor de cotovelo.
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: Zecatelhado às agosto 21, 2004 10:46 PM