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maio 25, 2004
[1037/2004] Darfur
Nada como ler um artigo como este para nos fazer arrefecer o temperamento e recordar que as verdadeiras atrocidades deste mundo vão muito para lá do nosso imaginário e que enquanto nós por aqui discutimos os nossos clubismos, lá longe, no Sudão, milhões vivem em pânico, sob a ameaça do extermínio.
Mais uma vez Hermínio Santos e os seus editoriais trazem-me ao conhecimento factos importantíssimos do nosso mundo, que a grande maioria da nossa comunicação social prefere ignorar, em troca de um qualquer escandalozeco...
Darfur, por Hermínio Santos
Dez anos depois do massacre do Ruanda, que o mundo ignorou, está a acontecer outra massacre que o mundo também parece esquecer. Ocorre em Darfur, no Sudão, onde desde Fevereiro se assiste a uma limpeza étnica protagonizada por milícias árabes apoiadas pelo Governo oficial sudanês que matam e expulsam não-árabes que vivem naquela região há séculos. No domingo, mais um ataque fez 56 mortos, o que contradiz a versão oficial das autoridades sudanesas que afirmam ter a situação controlada.
Darfur é uma vasta região do tamanho da França, localizada no noroeste do Sudão e com uma população estimada entre quatro a cinco milhões de pessoas. O norte é habitado principalmente por tribos árabes e o sul por não árabes. Durante décadas a região foi palco de disputas e conflitos entre as várias tribos, principalmente entre pastores, maioritariamente árabes, e agricultores sedentários, na sua maioria não-árabes. Segundo um relatório da Human Rights Watch (HRW) os conflitos tornaram-se mais sangrentos a partir da década de 80 devido à introdução de armas automáticas. O Governo nada fez para aliviar as tensões, optando até por armar as milícias árabes, as janjaweed, que serviriam também para combater movimentos rebeldes anti-governamentais.
No final de 2003 o conflito assumiu outras características e começou a assistir-se a acções de limpeza étnica. De acordo com o mesmo documento da HRW, o Governo do Sudão – um país membro da Liga Árabe que esteve reunida este fim-de-semana mas não terá abordado o assunto – e as milícias estão a desenvolver uma estratégia terror, violações e êxodo de civis baseada nas diferenças étnicas. Mais de um milhão de pessoas deixaram as suas casas e 100 000 terão atravessado a fronteira com o Chade, uma zona pobre e com pouca água.
Para além da HRW, o assunto Darfur tem sido abordado apenas pela ONU e só na passada sexta-feira é que se conseguiu alguma atenção mediática depois de os EUA terem anunciado que pressionarão o Conselho de Segurança das Nações Unidas para o levantamento de sanções ao Sudão. A assistência humanitária é escassa e a acção dos grupos que a praticam está restringida pela violência e pelas medidas do Governo sudanês. Esta é mais uma página horrível na triste história de África, cujo dia oficial se comemora a 25 de Maio. Esperemos que as lições do Ruanda não sejam esquecidas pois só assim será possível à Humanidade não perguntar, a propósito de Darfur e novamente envergonhada, como é que tudo isto aconteceu?
Publicado às 02:28:09
Comentários
Notícias destas só estariam na ordem do dia se houvesse alguma forma de culpabilizar a América. Enquanto isso olhamos e preocupamo-nos só com o Iraquianos. Antes... ninguém queria saber deles.
Publicado por: André às maio 25, 2004 11:41 AM