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janeiro 29, 2004

[0224/2004] É assim tão difícil de compreender?

O jmf, que eu tenho em conta de pessoa culta e inteligente, teima em distorcer as críticas que têm sido feitas à cobertura mediática da morte de Fehér. Vou tentar explicar o meu ponto de vista pela última vez.
O que geralmente tem sido criticado não é o facto da morte ser notícia e de ser acompanhada a situação, desde o facto até ao enterro e até mesmo após este. Agora há maneiras e maneiras de noticiar.
O luto não tem que ser obrigatoriamente silêncio, povos há em que até é motivo de festa, devido às suas crenças. O luto não tem que ser sinal de isolamento, pode ser motivo de agregação entre seres que partilham a mesma dor. O luto tem que ser é sentido e mostrado de forma respeitosa.
Como eu já o aqui disse, houve quem soubesse interpretar isto e, de uma forma geral, tivesse esse respeito pelo defunto, sua família e amigos, como a Sport TV, A Bola e, o DN, ainda que mesmo estes tenham exagerado na cobertura das exéquias fúnebres (eram perfeitamente evitáveis as fotografias da equipa à volta da urna, de todos os conhecidos e anónimos a prestarem a sua última homenagem, mas aqui ainda condescendo, pois não me parece que tenha havido grande intromissão).
O problema está naqueles que não sabem o que é o luto (ou que, por interesses materiais, preferiram fazer de conta que não sabem), mostrando vezes e vezes a queda do jogador, questionando a possibilidade de doping num atleta exemplar, colocando sistematicamente um microfone à frente de quem apenas queria isolamento e respeito pela sua dor, tentando comprar as imagens não transmitidas pela Sport TV dos grandes planos pós-queda e discutindo questões futebolísticas em torno do desaparecimento de Fehér.

No entanto, de uma forma geral, os bloguistas prestaram uma homenagem sentida e digna (que eu pessoalmente tenho tentado compilar num blogue específico, com muito gosto, na única forma que eu tenho de homenagear alguém que me deu algumas alegrias e com quem partilhei a tristeza da sua morte), enquanto que, na mesma forma geral, os media foram medíocres na forma como cobriram o facto.
Como em qualquer regra, de um lado e de outro existiram excepções.

Publicado às 19:23:27

Comentários

Este foi o mail que lhe enviei em resposta:
"João,

A resposta vai por mail, para não prolongar o ping-pong entre nós, até porque prometi que a última resposta que lhe dei era a última que publicava.
1 - Sei que o João não gosta de futebol, mas acredite que esse nº (o dos "fotografáveis") seria mais para os 10% que para os 90%. Era um jogador do Benfica e como o João sabe, o Benfica até passeios de burro faz vender nos jornais e televisões...
2 - As perguntas podem e devem ser todas feitas, mas o João, enquanto jornalista, divulgaria a pergunta "Será que Durão Barroso e Paulo Portas têm uma relação homossexual secreta?" sem primeiro procurar as respostas? (exemplo estapafúrdio para mostrar o ponto de vista.)
A missão do jornalista não é fazer todas as perguntas, é encontrar as respostas para essas perguntas. E volto a insistir, o problema não são as perguntas, é o timming das perguntas.
3 - Se assim foi ainda bem, mas não duvide que ainda há muita gente a tentar comprá-las...
4 - O seu parágrafo é deturpador do que eu escrevi. O que eu afirmei (e reafirmo) é que de uma forma geral os blogues foram muito mais dignos a tratar o assunto que as televisões, havendo em ambos os lados excepções. Ponha-se na pele da família do jogador ou de um amigo chegado. Entre o que viu escrito nos blogues (maioritariamente elogioso) e o que se viu nas TV's e alguns jornais (maioritariamente martirizante), com qual se sensibilizaria e com qual se indignaria?
Eu quando digo que é pelas audiências é para encontrar uma razão objectiva para o que fui obrigado a assistir, prefiro não aceitar que quem fez aquela cobertura o fez por pura insensibilidade para com o morto e os que sofreram com a sua morte.
5 - João, sinceramente, não me sinto atingido por este ponto. Todas as críticas que fiz aos media neste caso foram justificadas. Se ler os meus posts, verá que igualmente destaco pela positiva os que fizeram um bom trabalho. Agora não compactuo com sentimentos de classe, há bons e maus media, como em todos os sectores e profissões. E quando toca a cobrir situações de sofrimento humano, os media são normalmente mais maus que bons e raramente aceitam a crítica.

Em resumo, tenho pena que faça uma leitura tão enviesada das minhas palavras. Custa-me a crer que alguém que eu tenho em tão boa conta seja capaz de olhar para o que se passou esta semana e continue a defender o tipo de cobertura que o caso teve, numa atitude que eu só posso compreender como de defesa da classe a que pertence. Julguei-o mais capaz de distinguir o trigo do joio.
Esperemos que este seja caso único e que de futuro retome a clarividência que costumava marcar as suas análises."

Publicado por: NunoP às janeiro 30, 2004 02:56 AM

O jmf respondeu a este post no blogue dele, que eu transcrevo aqui:
"Fehér (ainda?)
Isto hoje está assim...
O Janela para o Rio volta ao tema da cobertura mediática da morte do Fehér e eu não resisto a mais uma dose de esclarecimentos sobre o que escrevi:
1. Fotografias de jogadores à volta da urna? Não sejamos ingénuos, o NunoP acha que 90 por cento daquela gente teria ido lá prestar homenagem se não houvesse uma câmara por perto?
2. Questionando a possibilidade de doping? Mas porque não? E porque não questionar todas as hipóteses? Não há cidadãos exemplares, como o caso da pedofilia mostrou. Além do mais, um cidadão exemplar pode ser dopado por outrém. Aos jornalistas cabe o dever, repito, o dever, de fazer todas as perguntas, repito, todas.
3. A Sport TV recusou vender imagens? Quando o futebolista estava a entrar na ambulância, vimos vários fotógrafos de volta da maca, mas não vimos uma única dessas fotos. Se calhar, as excepções são mais do que se pensa.
4. Os blogues prestaram homenagem sentida e digna, as televisões foram medíocres. Mas quem somos nós para julgarmos os sentimentos dos outros? Porque é que a nossa dor há-de ser genuína e a dos outros destinada apenas às audiências?
5. A mim indigna-me mais a indignação palavrosa, ôca e por vezes hipócrita que se levanta sempre à volta do comportamento dos media."

Publicado por: NunoP às janeiro 30, 2004 02:54 AM