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setembro 30, 2003
Ensino Privado versus Público
Ensino Privado versus Público Pegando na sugestão do
href="http://bloguitica-nacional.blogspot.com/">Bloguítica Nacional e do
href="http://catalaxia.blogspot.com/">Catalaxia, tentarei aqui abordar a
problemática do ensino privado vs publico e do superior vs básico e complementar
O ponto de partida para a análise, tal como ela foi colocada, é tentar perceber
porque é que os liceus privados são um exemplo de sucesso e as universidades
privadas não, antes pelo contrário, salvo honrosas excepções, são uma escolha de
recurso. Antes de iniciar, é preciso clarificar que a análise seguinte é uma
análise média, ou seja, há bons e maus liceus publicos e privados, assim como há
más universidades públicas e privadas. No entanto, a análise baseia-se numa
amostra média do que é a realidade em cada um deles. O primeiro ponto que
indentifico na distinção é o rigor. O que faz uma boa escola é o rigor.
Com que são escolhidos os professores, com que são cumpridos os programas, com
que se comportam os alunos. Nos bons liceus isto existe, nas boas universidades
também, mas são muito poucas as universidades em Portugal que dão valor ao
rigor. Nem todos os liceus têm esse rigor, alguns são mesmo conhecidos pelo seu
facilitismo, que permitem um mais fácil acesso à Universidade. No entanto, desde
que há rankings, parece-me que o nível tem melhorado, as escolas privadas
perceberam que o rigor é um factor de selecção. O segundo ponto é a oferta
estatal. É um facto que as secundárias nacionais do Estado, de uma forma
geral, deixam muito a desejar, em termos do citado rigor, no que toca à
disciplina, cumprimento dos programas, disponibilidade de professores, dimensão
das turmas, entre outros. Os liceus tornam-se assim um investimento necessário
para pais que podem e pretendem dar uma boa educação aos seus filhos, para além
de, pelo menos aparentemente, lhes garantirem uma maior segurança. No que toca à
Universidade, talvez por se tratar de áreas mais especializadas, o nível de
rigor da ofeta estatal sobe, mais nuns cursos que noutros, levando a uma maior
procura. Por seu lado, o rigor das privadas já não é o mesmo que nos liceus,
prevalecem as ofertas de cursos "de caneta e papel", em que predomina o
facilitismo. Claro que há as honrosas excepções, os casos de Arquitectura na
Lusíada, do IADE (Design) e do ISG (Gestão), mas estes são as excepções (ou
eram, aqui confesso que estou um pouco desactualizado sobre o actual nível
destes cursos). A Católica é um caso à parte, semi-privado, mas é claramente o
exemplo da excelência no ensino universitário, pelo menos essa é a ideia que
passa para o "mercado". Estes cursos que eu citei têm sempre as suas vagas
colocadas e, em termos de rankings, aparecem sempre lado a lado ou ligeiramente
acima dos cursos públicos, tal como nos liceus. A outra questão que se levanta e
que é a questão de fundo é se deve haver oferta estatal ou pelo menos ser esta a
que predomina? Aí sou da opinião que não, a Constituição obriga o Estado a
assegurar a educação, mas não diz em sítio nenhum que deve ser o Estado a
fornecer directamente. Diz o bom senso económico que se existem agentes
económicos privados dispostos a fazê-lo de forma igualmente eficiente mas com
maior eficácia (isto é, com menores custos), então devem ser estes agentes
económicos a prestar esse apoio. Em vez de sustentar verdadeiros elefantes
brancos (sem conotações com o conhecido bar...), o Estado deve é financiar
directamente os alunos, ou seja, a Universidade recebe uma comparticipação de x
euros por cada aluno que decida seguir aí os seus estudos, independentemente de
ser pública ou privada. Não ponho completamente de parte a oferta pública de
educação superior porque há certos cursos em que essa oferta não existe e eu não
compreendo o porquê, como é o caso de Medicina, ainda que desconfie que isto tem
mais de bloqueio do Estado, por uma qualquer obscura legislação do que por falta
de iniciativa privada. O terceiro ponto é o factor escolha. Ao nível do
secundário, enquanto que no privado eu posso escolher para que escola vou, na
pública não. Isso faz com que os bons alunos que têm hipótese vão para uma boa
escola privada, porque não estão dispostos a arriscar na pública, onde não sabem
o que vão encontrar. No ensino superior tudo se baseia na escolha, que na
pública, quer na privada, o que permite um maior nivelamento de realidades. Um
bom aluno de Bragança pode escolher vir para Engenharia Civil na FEP ou no IST,
não é obrigado a ficar na UTAD ou escolher uma privada. Essa é uma grande
diferença! Possibilitem a escolha aos alunos do secundário e veremos se
rapidamente não se separa o trigo do joio. E não me venham com a história da
igualdade de direitos, que isso apenas tem demonstrado que serve para nivelar
por baixo a qualidade do ensino. Não são os maus alunos que seguem o exemplo dos
bons, são os bons que relaxam, até porque os professores sentem-se na obrigação
de nivelar as exigências pelos mais fracos, para que estes possam progredir no
ensino obrigatório. É a famosa história da maçã podre. Se tivermos apenas uma
maçã podre numa caixa de 50 maçãs e não fizermos nada, não é a maçã podre que
fica boa, são as outras 49 boas que acabam por apodrecer. É por isso necessário
retirar a maçã podre da caixa. O exemplo pode parecer muito forte, mas o que eu
quero dizer é que todos têm direito à educação, mas nem todos têm perfil e
vocação para serem doutores ou engenheiros, pelo que a separação entre os bons e
os maus alunos deve ser feita, pelo próprio funcionamento do mercado de
educação, por forma a garantir que o país não desperdiça os seus melhores
cérebros. O quarto ponto é o factor da continuidade Uma das coisas que
muitos liceus privados oferecem e os torna apetecíveis é o facto de o aluno
entrar lá muitas vezes ainda na pré-primária e aí continuar até ao 12º ano. Isto
acaba por proporcionar uma estabilidade ao aluno e um conhecimento das suas
características por parte dos professores, que faz com que o seu percurso
escolar seja de maior sucesso. No secundário público, em condições normais um
aluno frequenta pelo menos 4 escolas antes de chegar à universidade
(pré-escolar, primária, C ou C+S e secundária), isto se entretanto não mudar de
residência. Quando se fala em universidades, estão em pé de igualdade público e
privado, pelo que este factor também aí não é diferenciador. Em
conclusão: Desta análise resulta que é muito mais fácil e provável que um
liceu privado seja um negócio de maior sucesso, em termos de rankings de
preferências e notas, que uma universidade privada, pelo menos enquanto houver
concorrência directa de instituições públicas, concorrência essa que na maior
parte dos cursos não faz sentido. Há, no entanto, um esforço enorme ainda a
fazer pelas Universidades Privadas de credibilização junto dos potenciais
alunos, pois a imagem actual é de facilitismo, não de rigor. Dessa forma, apenas
atrai aqueles alunos que querem ter um "canudo" a qualquer custo, mas não atrai
os bons alunos. Esta é a minha perspectiva, fico a aguardar a de outros
blógueres, até porque sei que alguns dos pontos que aqui apontei são polémicos
na nossa sociedade, especialmente alguém assumir que se devem separar bons e
maus alunos no secundário.
Publicado às 11:21:19