janeiro 26, 2004

[0188/2004] Luto

Acho que a morte nos apanha sempre de surpresa, por muito que pensemos o contrário, nunca estamos preparado para ela. Sei disso por experiência própria, pela situação do meu pai há pouco mais de um ano.
Mas a morte pode ser brutal, pela forma extemporânea com que surge. E quando ligamos a televisão para ver um jogo de futebol, a última coisa para que estamos preparados é para assistir em directo à morte, que nos entrou ontem à noite casa adentro, sem pedir licença. Podia ter esperado o final do jogo e o recato dos balneários ou da casa do jogador, mas não, a morte quis ser protagonista e chocar todos em directo, para que todos saibamos que é ela que manda e decide.
Desde o 11 de Setembro que nenhumas imagens me chocavam tanto. Mesmo essas, quando liguei a televisão, sabia teoricamente ao que ia, não estando obviamente preparado para a verdadeira dimensão da situação. Ontem à noite foi a estupefacção total, afinal de contas era um jogo de futebol, jogado por homens fisicamente em forma, meticulosamente controlados do ponto de vista clínico. Ainda por cima num momento em que todos apenas já esperávamos o final de um triste jogo, que se tornou no mais triste da história do Benfica e do Guimarães.
Por natureza o ser humano tem dificuldade em lidar com a morte, só isso justifica alguns argumentos descabidos de que o jogador morreu porque não foi devidamente assistido. Nada mais falso, morreu porque tinha de morrer, o ataque foi fulminante, mortífero mesmo. Pelo que vi, médicos, bombeiros e colegas fizeram o que era humanamente possível. O tal Deus em que muitos crêem achou que não se justificava a sua intervenção e o esforço humano não foi suficiente para salvar esta vida.
Tentando encontrar alguma réstea de optimismo no que aconteceu, resta-nos a escassa consolação que morreu de uma forma rápida e aparentemente indolor, a fazer aquilo que sabia e gostava.
Uma palavra ainda de solidariedade para a família de Feher, que deve estar inconsolável com a perda, ainda por cima a milhares de kms de distância e para os colegas do Benfica e Guimarães, que devem ter sofrido ontem os minutos mais angustiantes das suas carreiras e que dificilmente esquecerão.
Pena que seja por factos como este que Miki Fehér seja hoje notícia um pouco por todo o mundo...

Publicado por NunoP em janeiro 26, 2004 11:19 AM | TrackBack
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