A coligação PSD/CDS-PP para as eleições europeias
Tal como Pacheco Pereira e muitos militantes do PSD, não consigo perceber como é
possível dois partidos com ideais e opções tão distintas sobre a Europa
coligarem-se para as eleições ao Parlamento Europeu. E não percebo por várias
razões: 1) Há 4 anos atrás Paulo Portas, então nº1 da lista do CDS-PP disse do
PSD e das suas opções europeias aquilo que nem a Oposição tem coragem de dizer
hoje do Governo, numa posição claramente anti-europeia. Como é possível que ele
agora apoie o mesmo PSD, ainda que com outras caras? 2) No Parlamento Europeu
PSD e CDS-PP integram famílias políticas diferentes. Como será agora, a que
grupo irão pertencer os futuros eleitos, todos à mesma família ou cada um para
seu lado? A primeira opção demonstra incoerência política, a segunda demonstra
que são duas listas numa. 3) Porquê a coligação? Nas Legislativas eu ainda
percebo, quem ganha tem que formar Governo, pelo que tem que assegurar apoio na
Assembleia da República, mas nas Europeias os 25 eleitos vão para um Parlamento
de 626 deputados (que serão 732 após o alargamento, diminuindo igualmente os 25
portugueses para 22), onde não vão governar, mas sim legislar e controlar a
acção do Conselho Europeu (ou a futura presidência europeia, de acordo com a
proposta de Constituição). Então para que serve a coligação? 4) Mesmo no caso do
Governo, só após as eleições foi efectuado um acordo entre os partidos, que
permitisse a criação de um Governo com alguma estabilidade parlamentar. Porquê
neste caso um acordo pré-eleitoral? 5) Ao concorrer em parceria com o PSD, o
CDS-PP perde qualquer espaço de manobra para questionar a construção europeia,
pelo menos da forma que sempre o fez até ser Governo. E deixa esse espaço livre
à Nova Democracia, de Manuel Monteiro. Nova Democracia que já está a aproveitar
esse espaço, aparecendo como o rosto visível da opinião pública na exigência do
referendo, através do abaixo assinado que está a promover. Aliás, o CDS-PP corre
o sério risco de se eclipsar completamente, com esta colagem ao PSD. E corremos
o risco de brevemente ter na Nova Democracia o PRD do século XXI, recolhendo os
votos dos descontentes à direita e ao centro, aqueles que estão descontentes com
o Governo e não reconhecem no actual PS uma opção válida. Em conclusão, esta
coligação está condenada ao fracasso, pois criará grandes divisões dentro do PSD
(o que resultará numa fragilização do partido que lidera a coligação
governativa) e retirará qualquer espaço de manobra ao CDS-PP, que sem poder
defender as suas principais ideias sobre a Europa, arrisca-se a ser "eclipsado",
com o seu espaço ocupado pela Nova Democracia. Razão e juízo teve por isso
Pacheco Pereira quando decidiu afastar-se deste processo, numa posição de
coerência que cada vez mais rareia na nossa classe política.